ANTECEDENTES DO PLANO
Antes
da implementação do Plano Cruzado, sucederam-se alguns fatos na condução da
política econômica brasileira. O
primeiro fator foi a substituição do ministro Dornelles por Dilson Funaro. Para
Dornelles a inflação era resultante do déficit do setor público – visão
ortodoxa. Conforme constatação do ministro o orçamento do setor público incluía
o orçamento fiscal (receitas e despesas previstas pelos órgãos da administração
direta), orçamento monetário (operações do Bacen) e orçamento das estatais. Em
ocasiões de déficit público, o financiamento era processado através do setor
privado e, na ausência deste, pela emissão de moeda. A emissão de moeda
ocasionava o aumento da demanda agregada, sem que houvesse respectivo aumento
na produção, ocasionando assim a inflação de demanda.
Sendo assim, o tratamento
da inflação era feito com corte nos gastos do setor público e elevação da taxa
de juros. Isto levava à redução do déficit do setor público e do ritmo de atividade
econômica. A partir destas constatações, o início do novo governo se dá sobre
bases de austeridade fiscal e monetária. As principais medidas foram:
- Paralisação das operações ativas dos bancos oficiais;
- Corte de 10% no orçamento fiscal;
- Proibição de contratação de novos funcionários.
No mês de março de 1985 a
inflação estava em aproximadamente 12,7%, quando ocorre o primeiro congelamento
de preços do novo governo. A partir desse momento, tem-se modificação nas
formulas de cálculo da correção monetária e das desvalorizações cambiais.
- Extensão da “memória” do processo inflacionário de 1 para 3 meses, com a substituição da correção a partir da inflação do mês em curso pela média geométrica dos 3 meses anteriores;
- Minidesvalorização do cruzeiro.
Com estas medidas, a
inflação de abril fechou em 7,2%, ocasionada, sobretudo, pela suspensão do
reajuste dos preços de produtos siderúrgicos e derivados de petróleo, os quais
respondiam, respectivamente, por 7,4% e 11% do IPA-DI, o qual corresponde a 60%
do IGP-DI.
Em junho tem-se a
descompressão dos preços com aumento de 9,5% nos automóveis e 15% no cimento
(preços privados) e de 15,6% aços planos, 22,8% energia elétrica, 77,2% tarifas
portuárias e 60% transporte urbano (preços públicos).
Em junho e julho, a inflação,
medida pelo IGP-DI registrou 7,8% e 8,9% respectivamente. Entretanto, em agosto
a inflação chega a 14%, resultado do choque agrícola que ocasionou aumento de
19% no preço dos gêneros alimentícios. A partir desse novo descontrole do
processo inflacionário tem-se a substituição do ministro Dornelles por Dilson
Funaro.
Para o novo ministro o
desequilíbrio nas contas era de natureza financeira, sobretudo, devido o peso
dos serviços das dívidas interna e externa. Segundo o ministro, a necessidade
de girar a dívida mobiliária representava ônus para as finanças públicas. Isso
era verdade, dada a taxa de juros real nos três primeiros meses da nova
república: 56% a.a. (over)
Um outro
ponto destacado pelo ministro era a “estatização da dívida externa” e do alto
grau de endividamento externo das estatais. Este processo se dava pela absorção,
pelo Estado, dos riscos das desvalorizações cambiais e da dívida das empresas e
dos bancos, quando estes não repassavam os recursos captados no exterior. Além
disso, o endividamento externo das estatais para fechamento do Balanço de
Pagamentos na 2ª metade da década de 70, juntamente com a redução nas receitas
das mesmas em função de cortes no investimento, ocasionava maior pressão sobre
o processo de crescimento da dívida.
Sendo
assim, o ministro constatou que o problema das estatais estava na captação de
recursos para bancar os investimentos. Dessa forma, a questão inflacionária se
desviava da concepção de inflação de demanda para a esfera financeira.
Nesse sentido, as principais
medidas adotas no intuito de combater a inflação e dar novo ritmo à atividade
econômica foram:
→ Reorientação do Banco Central; Redução da taxa de juros
(open-market) sobre os títulos públicos. Em setembro e outubro de 1985, as
taxas se situam em 10% a.a. e tornando-se negativas no trimestre seguinte. Essa
taxa negativa se deu em função do processo inflacionário, que no período apresentava
uma taxa de inflação de 15% a.m.
→ Reforma fiscal com aumento da progressividade do IRPF.
→ Meta inflacionária de 10%, com inflação de agosto atingindo
10%.
Em setembro retorna a
correção pela inflação do mês em curso e a correção das tarifas pública e
administradas seriam em bases mensais. Estas medidas determinariam a estabilização
da inflação com aumento no grau de indexação da economia. Além disso, a nova
política determinava um menor controle da base monetária e redução da taxa real
de juros.
Com estas
medidas, visava-se a adoção de uma moeda indexada. Preços, taxa de câmbio e
ativos financeiro seriam atrelados às variações mensais da ORTN.
Quanto à
política salarial, o objetivo era promover reajuste salarial trimestral, com a
proposta de reajuste mensal de acordo com a variação do IPC, e escala móvel com
gatilho de 30% e reajuste mensais pré-fixados a cada três meses.
Dessa forma, o governo
permitiu que houvesse a livre negociação de abonos, adiantamentos, e esquemas
alternativos de indexação, desde que não houvesse repasse para os preços. Com
isso, os salários reais têm aumento de poder de compra.
Com a adoção destas
medidas, a inflação de setembro e outubro fecha em 9%. Porém, em novembro
atinge 15% em função de um novo choque agrícola originário da seca. A partir
desse momento, o indexador universal da economia passa a ser o IPCA em
substituição ao IGP-DI, por ser o primeiro, menos sensível a choques agrícolas
e cambial. Apesar da mudança do indexador, a inflação de dezembro e janeiro atinge
13,4% e 16,2% pelo IPCA, como resultado do choque de oferta agrícola. Dessa
forma, mesmo o novo índice que teoricamente era insensível aos choques, foi
atingido posteriormente.
Todas as medidas adotadas
neste período tinham um caráter gradualista e não apresentaram os resultados
desejados, a saber, a estabilidade das taxas mensais de inflação.
Os principais dados
econômicos para o período são:
- PIB industrial cresce 9,2% durante dos 12 meses anteriores.
- Balança comercial acumula superávit de US$ 12,8 bilhões nos 12 meses anteriores.
- Reservas alcançam US$ 11,6 bilhões em dezembro e US$ 4,7 bilhões no conceito do FMI
- Eliminação do déficit público em 1986.
A INSTITUIÇÃO DO PLANO CRUZADO
O Plano
Cruzado foi instituído em 28 de fevereiro de 1986, com a taxa de conversão em
mil cruzeiros por cruzado. Os salários foram convertidos compondo o poder de
compra médio entre set/1985 e fev/1986, a preços de fev/1986. Houve também uma
concessão de abono de 8% aos assalariados e a fixação do Salário mínimo em Cz$
804,00, mais um abono de 16% em relação à média.
Outras medidas
tomadas em relação à política salarial foram:
- Correção dos salários com base em 60% da variação acumulada do custo de vida;
- Reajuste anual, correção de acordo com a escala móvel caso a inflação acumulasse gatilho de 20%.
Com a instituição do
Plano, houve um deslocamento da base do IPCA para 28 de fevereiro, passando a
se chamar IPC. Além disso, houve a fixação da taxa de câmbio ao nível de
fevereiro de 1986. Uma característica do
plano foi a não fixação de regras ou metas para as políticas monetárias e
fiscal, sendo relegada ao discernimento dos responsáveis pela política econômica.
Dessa forma, o objetivo da política monetária era tão somente acomodar o
incremento na demanda de moeda que resultaria na mudança de carteira em favor
da moeda estável, dada a percepção de um movimento não inflacionário.
Quanto às taxas de juros
sinalizariam a monetização excessiva ou insuficiente. Uma taxa elevada afetaria
negativamente programa de investimento e o peso da dívida pública interna. Uma
taxa baixa estimularia especulação com estoques e moedas estrangeira. Nesse
sentido, o controle da taxa de juros recomendava um difícil exercício de
métodos e modelos econômicos.
OS RESULTADOS DO PLANO
Queda da taxa de inflação,
sendo a mais alta a de maio (1,4%). Apesar da queda do processo inflacionário,
verificava-se uma distorção entre preços relativos congelados e os de difícil
controle tais como os preços de artigos e vestuários e carros usados que aumentam
entre 4 e 5% ao mês. Estes dois itens correspondem a 15% do IPC.
Como consequência do
pano, verifica-se um excesso de demanda em decorrência da conjugação de
diversos fatores:
- Aumento do poder de compra
- Despoupança voluntária (Ilusão monetária)
- Declínio do recolhimento do IRPF.
- Redução das taxas de juros nominais
- Consumo reprimido
- Congelamento de preços em níveis defasados aos custos
Além disso,
o excesso de demanda era reforçado pela expansão da oferta monetária.
Concomitantemente ao excesso de demanda, verifica-se também um aumento no desequilíbrio
fiscal. Esse desequilíbrio se originou do aumento na despesa com pagamento de
funcionários público, subsídios diretos e indiretos, isenção tarifária,
transferências a empresas estatais, estados e municípios. Com isto, o déficit alcançou
2,5% do PIB em contraste com 0,5% estimado pelo pacote.
Principais
indicadores do crescimento da demanda;
- 22,8% nas vendas do 1º semestre
- 33,2% produção de bens de consumo durável
- Queda do desemprego de 4,4% para 3,8%
- Ganho real do salário de 12%.
CRUZADINHO, JULHO A OUTUBRO DE 1986
Consistiu
basicamente num pacote para desaquecer o consumo, através da criação do sistema
de empréstimo compulsório. Esse sistema consistia em:
- Imposto indireto sobre gasolina e automóveis, restituível em 3 anos;
- Impostos não-restituíveis sobre compra de moeda estrangeira para viagens internacionais.
Além disso,
o plano consistia em um programa de investimento público e privado visando
crescimento de 7% do PIB, financiado pelo crescimento na arrecadação em virtude
do sistema de empréstimo compulsório.
Entretanto,
a expectativa de congelamento impulsionou ainda mais a demanda, onde se
verificou um crescimento da atividade industrial de 12% em setembro
Os resultados do plano
não foram tão satisfatórios quanto se esperava. De início verificou-se uma
queda na taxa de inflação oficial. Entretanto, essa queda não reflete a
inflação real em função da proliferação do ágio, do desabastecimento e
introdução de novos produtos que burlavam o congelamento.
Com o
aquecimento da demanda interna, houve uma maior absorção dos produtos internos,
bem como de produtos importados, fato demonstrado pela queda na receita de
exportações no mês de outubro de US$ 2,1 bilhões para US$ 1,3 bilhões.
A saída
para manter o equilíbrio da balança foi um descongelamento da taxa de câmbio de
1,8% com política de minidesvalorizações eventuais baseados em indicadores da
relação câmbio/salário. Apesar disso, tinha-se a expectativa de uma nova e
maior desvalorização do cruzado, uma vez que o indicador sugeria uma taxa de
câmbio valorizada em 10% em relação a fev/1986. Apesar de todas as medidas
adotadas antes e durante o Plano Cruzado, a condução do mesmo não surtiu os
efeitos esperados, uma vez que o processo inflacionário continuou vigorando na
economia, o que determinou o fim do Plano Cruzado e a elaboração do Plano
Cruzado II.
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